O PT de Lula destruiu a céu aberto a reputação dos presidentes que o antecederam, tendo todos eles dado bons motivos a contestação. Com o apoio do movimento popular, realizou grandes mobilizações com aquela corrosiva finalidade.
A forca era a mesma. Mudava o nome do Judas: o “Fora Sarney” virou “Fora Collor” que virou “Fora FHC” e seria “Fora qualquer um” até que Lula subisse a rampa para iniciar um processo histórico contra “tudo aquilo que estava lá” – o mote das ruas.
Dos três, o mais jovem foi traído pelo excesso de confiança e não comprou – o termo é este – o parlamento. Pelo erro fatal, foi largado na selva à própria sorte e logo devorado pelos caras pintadas. À frente deles, o que se via? Bandeiras do PT.
Enfim, enquanto se consolidava no movimento popular, identificado à medula com as lutas dos assalariados, o PT atraía a classe média urbana ao denunciar o baixo padrão ético das representações partidárias mais ligadas às elites econômicas.
Até que chegou a vez de também eles entrarem na máquina de triturar “bravatas” (o termo é do próprio Lula), assumindo o que um dia denunciaram como “poder burguês”, e abdicar de grandes rupturas para obter avanços pontuais a custo alto.
O escândalo do mensalão estourou porque José Dirceu tentou levar um bandido perigoso na conversa. O ministro calculou: “O Roberto Jéferson não grita porque sabe que, se gritar, vai junto”. Em tese, estava certo. Era a regra. Mas se deu mal.
Jéferson estava disposto ao papel de exceção e abriu a boca, mesmo sob o risco de cair na vala que abria sob os pés, porque surtou à loucura de um narciso ferido. Presunçoso, José Dirceu não sabia dos homens tanto quanto imaginara. Trincou.
O fato é: qualquer netinho do Lula sabe que o presidente conhecia a finalidade, os atores e o modelo daquela operação que recebeu o nome impróprio de “mensalão”, mas nenhum fator facilitava seu envolvimento pessoal no processo condenatório.
Em primeiro lugar, a rotina presidencial foi protegida das manobras corriqueiras da operação: em nenhum momento passível de verificação investigativa a palavra “presidente” cruza a nuvem onde estão alojados os outros termos do problema.
Mais. Interessava às elites fazer com que a frente popular instalada na esplanada de Brasília sangrasse em praça aberta, mas jamais interessou a ela uma crise institucional que retirasse a legitimidade do mandato presidencial de Lula.
E não foi por amor à pátria que as elites não semearam a crise, mas por duvidar de um desfecho favorável a ela. Tinham razão: haveria enorme resistência. Amparado no aparelho de Estado, o movimento social organizado reagiria em muitas frentes.
Lá fora, tampouco haveria entusiasmo: a política econômica conduzida por Lula era, nos seus termos essenciais, de continuidade ao receituário antes acordado com a banca internacional. É difícil mexer com quem está de bem com os brancos.
No mais, ao contrário do siderado Collor, Lula tecera paciente pacto no Congresso Nacional, rifando a alma e mais algumas joias da coroa para atar a carroça do PMDB aos arreios de seus cavalos. Ali, o desejo de poupá-lo era imensurável.
Por fim, o governo Lula obtinha aprovação nunca vista: o país crescia, os índices de emprego batiam recordes, ampliava-se o crédito e haja Bolsa família: foram trinta milhões de brasileiros retirados da miséria. E aí, valia a pena mexer com “o cara”?
Eis aí as razões que deixaram o presidente a salvo de envolvimento declarado com uma operação que ele não apenas conhecia como tinha como objetivo resolver pendências que dariam maior tranquilidade à sua base de apoio parlamentar.
Agora, vendo velhos companheiros presos por crime que ele consentira e do qual seria ele o mais beneficiado caso houvesse êxito, como deve estar sentindo os fatos Lula, entre uma baforada e outra dos charutos que aprecia? Aliviado, talvez.
Voto não, ó...
O presidente do STF, Joaquim Barbosa, é citado com frequência por eleitores com aquele perfil carente de um salvador da pátria – o virtuoso que, pairando acima das instituições, preveja com clarividente saber a necessidade comum a todos.
Sei não. O homem mandou prender os petistas num feriado. Em prisão fechada, quem tem pena prevista em semiaberto. E mandou para Brasília quem ficará detido em seu estado. Tudo como se fossem, os réus, feras de um circo seu.
Imagina um sujeito como esse despachando naquele outro palácio. Dá não.
Pauta Livre é cão sem dono. Se gostou, passe adiante.
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*Ricardo Alcântara é escritor e publicitário
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terça-feira, 19 de novembro de 2013
Mensalão: Por que Lula escapou?
Pauta Livre - por Ricardo Alcântara*
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