Caso Coaf exige reação urgente de Sergio Moro
"Até onde a vista
alcança, não há no episódio sobre a movimentação bancária suspeita do
ex-motorista do primeiro-filho Eduardo Bolsonaro nenhum bom exemplo. Mas o Caso
Coaf é um bom aviso. O brasileiro foi avisado do seguinte: enquanto as coisas
não estiverem acomodadas em pratos asseados, o compromisso de Jair Bolsonaro de
inaugurar uma gestão implacável com os malfeitos vale apenas até certo ponto. O
ponto de interrogação.
Prestes a assumir um Ministério da Justiça turbinado, com o premonitório
reforço do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), órgão que
farejou a vaivém "atípico" de R$ 1,2 milhão, Sergio Moro está,
por assim dizer, obrigado a dizer meia dúzia de palavras sobre o episódio. A
presença da futura primeira-dama Michelle Bolsonaro no epicentro da crise
indica que o pior excesso que o ex-juiz da Lava Jato pode cometer é o da
moderação. Seu silêncio é simplesmente inaceitável.
O próprio Moro
fixou as balizas para o comportamento que se espera dele. Fez isso ao declarar
coisas assim: "Eu não assumiria um papel de ministro da Justiça com o
risco de comprometer a minha biografia, o meu histórico." Ou assim:
"Eu defendo que, em caso de corrupção, se analisem as provas e se faça um
juízo de consistência, porque também existem acusações infundadas, pessoas têm
direito de defesa. Mas é possível analisar desde logo a robustez das provas e
emitir um juízo de valor. Não é preciso esperar as cortes de Justiça proferirem
o julgamento."
Pois bem. Moro foi
guindado à Esplanada graças ao "histórico" de magistrado implacável
que ajudou a arrancar do Brasil a logomarca de país da impunidade. Não há como
grudar nos indícios colecionados pelo Coaf a pecha de "acusações
infundadas". E as primeiras manifestações dos Bolsonaro —pai e filho—
constituem o início do exercício do sacrossanto "direito de defesa".
Tomados pelas palavras, o senador eleito Flávio Bolsonaro e futuro presidente
Jair Bolsonaro parecem não ter enxergado nada de anormal na atipicidade que
transformou a conta do ex-motorista Fabrício Queiroz em matéria-prima para o
Ministério Público Federal.
O diabo é que,
diante das tentativas de explicação e dos dados que se encontram pendurados nas
manchetes, nada tornou-se uma palavra que ultrapassa tudo. De modo que Moro
haverá de concluir que "não é preciso esperar as cortes de Justiça
proferirem o julgamento" para emitir um primeiro "juízo de
valor". O mínimo que o ex-magistrado precisa declarar, para não
"comprometer a biografia" que constriu, é que há sobre o palco um
déficit de transparência.
Em política, todo o
mal começa com as explicações. O que um político faz para explicar uma má
notícia é o que deixou de fazer por convicção ou precaução. Mas há males que
vêm para pior. Isso ocorre quando as explicações são insatisfatórias. A
encrenca que veio à luz com o relatório tóxico do Coaf, produzido no contexto
de uma investigação sobre corrupção na Assembleia Legislativa do Rio, exige a
transparência de um cristal. E o que se tem, por ora, é a transparência de um
copo de requeijão.
Ou Moro informa ao país que enxergou o óbvio ou passará a frequentar a
cena como uma espécie de sub-general Mourão, pois o vice-presidente eleito
Hamilton Mourão já declarou: "O
ex-motorista, que conheço como Queiroz, precisa dizer de onde saiu este
dinheiro. O Coaf rastreia tudo. Algo tem, aí precisa explicar a transação, tem
que dizer." Sobre os R$ 24 mil que foram parar na conta de Michelle
Bolsonaro, Mourão afirmou que o marido-presidente "colocou a justificativa
dele. Ele já disse que foi um empréstimo." O general acrescentou: "O
Queiroz precisa explicar agora."
Conforme já foi comentado aqui, a alegação de
Jair Bolsonaro de que a cifra repassada a sua mulher é parte do pagamento de
empréstimos de R$ 40 mil que fez ao ex-motorista do filho tem a solidez de um
pote de gelatina. Flávio Bolsonaro, por sua vez, disse ter ouvido do
ex-assessor uma "história bastante plausível" sobre o montante de R$
1,2 milhão movimentado atipicamente. Mas perdeu a oportunidade de definir
"plausível" no instante em que afirmou: "Eu não posso dar
detalhes aqui, porque é o que ele vai falar para o Ministério Público."
Neste domingo, Jair Bolsonaro ecoou o filho. Numa entrevista em
que minimizou o fato de
pelo menos oito assessores de Flávio Bolsonaro terem realizado depósitos na
conta de Fabrício Queiroz, o presidente eleito declarou que é o ex-motorista
quem "tem que explicar" o que parece inexplicável. O problema é que,
desde que os dados do Coaf vieram à luz numa notícia do Estadão, já
se passaram 120 horas (pode me chamar de cinco dias). E Fabrício, personagem
que os Bolsonaro chamam de "amigo", ainda não convocou os holofotes
para compartilhar com os brasileiros sua "história bastante
plausível."
Diante do sumiço do
"amigo", a família Bolsonaro, sempre tão loquaz, revela-se
intelectualmente lenta no provimento de explicações, moralmente ligeira nas
conclusões sobre a normalidade dos indícios e politicamente devagar na
avaliação do estrago que o caso produz. Qualquer dessas velocidades é um
insulto à inteligência alheia.
A ofensa será maior se Sergio Moro
imaginar que pode assistir a tudo com o distanciamento de um scholar entretido
com o paradoxo de um presidente que se enrola antes da posse depois de se
eleger enrolado na bandeira da moralidade. A conjuntura exige do ex-juiz da
Lava Jato uma reação urgente. Nem que seja uma cara de nojo."
Fonte: Blog do Josias
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