VELHO
CHICO EM PROSA E VERSO
Velho Chico,
rio dos Currais, rio da Unidade Nacional. Esses são apenas alguns dos apelidos
que ao longo dos anos foram sendo atribuídos ao Rio São Francisco, cuja bacia
compreende uma área de 645.876,6 km², o que corresponde a cerca de 8% do
território nacional. A nascente, que é o único fornecedor de água na região
semi-árida do sertão, fica na Serra da Canastra (MG). Já sua foz (e os versos
do poeta Zé Dantas não nos deixam esquecer), “vai bater no meio do mar”, no
Oceano Atlântico, bem na divisa de Alagoas e Sergipe. Mas o São Francisco não é
cantado apenas em
verso. Recebeu papel de destaque na prosa imortal de
Guimarães Rosa. Afinal, foi à beira do "Velho Chico", que Riobaldo conheceu
Diadorim, a quem amou com um amor que, para seu coração de sertanejo, pensava
ser proibido. O São Francisco também é um manancial de cultura, com suas
carrancas, lendas e mitos. O Negro d'Água, contam os habitantes da região, sai
das águas para pedir fumo. Já a Mãe d'Água é amiga das lavadeiras e adora
receber presentes. Não se pode desprezar o lirismo contido na lenda da cabocla
Iati, cujas lágrimas derramadas pelo amor perdido seguiram o rastro do amado,
formando o Rio São Francisco.
Infelizmente,
o estado atual do maior rio inteiramente brasileiro é de degradação. Não são
mais as lágrimas puras de Iati que permeiam o São Francisco, mas os dejetos de
mineradoras, agrotóxicos e até esgotos domésticos e industriais. O desmatamento
é uma realidade que traz seca constante, queda de barrancas e o tão falado
assoreamento do rio, ou seja, o acúmulo de terra em seu leito, o que dificulta
a navegação deste rio tão notável por suas barcas e balsas. Por causa da tão
falada e não menos polêmica “transposição”, o governo federal diz que vai
investir, até 2010, cerca de R$ 871 milhões do Programa de Aceleração do
Crescimento, no tratamento dos esgotos despejados na Bacia do rio São
Francisco, na recuperação das matas de suas margens e em ações de
desassoreamento, com a retirada de sedimentos do fundo do rio.
Os
recursos, segundo o Ministério da Integração Nacional, serão distribuídos por
meio de convênios com 168 prefeituras de cidades localizadas na calha ou na
área de influência do “Velho Chico”, nos estados de Minas Gerais, Bahia,
Pernambuco, Sergipe e Alagoas. Mas será que num país em que a corrupção virou
uma verdadeira pandemia, dá mesmo para acreditar que esse rio de dinheiro não
terá seu curso desviado e em vez de ser “despejado”, a exemplo do rio Pajeú, no
São Francisco, acabará formando mais um mar de lama, em que administradores
corruptos e empreiteiros desonestos continuarão mergulhando?
Comentário que escrevi em 22.06.2007, na PRETO NO BRANCO, coluna assinada no Jornal O ESTADO.
Lembrando que essa obra de transposição do São Francisco foi iniciada em 2007 e, à época, foi tida como a mais cara entre os projetos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).De lá pra cá, quase cinco anos se passaram e as coisas continuam as mesmas ou piores lá pras bandas do "Velho Chico". A transposição continua a passos de tartaruga, sendo que o único aumento que se tem notícias ao longo dos anos, é o do valor da obra que já ultrapassou a marca dos 71%, do orçamento inicial, chegando a superar a bagatela de R$ 8 bilhões.
É o caso de se perguntar: Como andará o "Velho Chico"?
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